Simão Sessim: o final feliz de um deputado delatado

Depois de dez mandatos, os 34.267 votos recebidos nas eleições do ano passado não foram suficientes para que o ex-deputado federal Simão Sessim, de 83 anos, garantisse mais um período na Câmara. Ficou apenas como suplente, uma espécie de banco de reservas do Legislativo. As urnas deram um recado que talvez fosse a hora de parar.

Na última sexta-feira então, enquanto a maioria das pessoas comemorava a virada de janeiro para fevereiro, Sessim chegou no seu final feliz. Um ato do (de novo) presidente da Casa, Rodrigo Maia, ratificou a sua aposentadoria, com direito a “proventos correspondentes a 79,2% do subsídio parlamentar, acrescidos de 8/35 da remuneração fixada para os membros do Congresso Nacional”. O blog é de Humanas e não calculou, mas deve ser um valor suficiente para uma terceira idade confortável do ex-parlamentar no seu apartamento em frente à Praia da Barra da Tijuca.

Mas a mesma sexta-feira trouxe outro fato marcante para a trajetória do ex-deputado: ele foi contemplado com o cargo de representante em Brasília do governo estadual, comandado atualmente pelo ex-juiz federal Wilson Witzel. A nova era da política nacional, que, com suas peculiaridades, se reproduz no Rio de Janeiro promete produzir muitas histórias de sucesso. A de Sessim não pode ficar de fora.

Da certeza ao arquivamento

Se voltarmos não mais do que quatro anos, o futuro não parecia promissor para o político de Nilópolis, primo do bicheiro Aniz Abraaão David. Em delação realizada em 2015, o doleiro Alberto Youssef cravou que Sessim fazia parte de um grupo de deputados do Partido Progressista que “com certeza” recebia uma mesada de propina que teria variado de R$ 30 mil a R$ 150 mil, relacionada ao esquema criminoso montado dentro da Petrobras. Os valores só não eram mais altos, segundo Youssef, porque esse grupo era de menor expressão na legenda.

Paulo Roberto Costa, também delator e ex-diretor de Abastecimento da estatal, afirmou que Sessim chegou a pedir “recursos extraordinários” em 2010, de R$ 200 mil, além da suposta cota que teria no racha periódico do partido. O apoio financeiro teria, segundo Costa, resultado até num agradecimento “por meio de contato pessoal num evento social”. O ex-diretor também citou a presença do ex-deputado num evento com membros do Partido Progressista, onde teria sido homenageado com um relógio Rolex pelos serviços prestados na Petrobras.

Nada disso, porém, foi para frente. Em junho de 2016, o ministro Teori Zavascki arquivou o inquérito no STF que investigava Sessim por falta de provas concretas. Outro procedimento, envolvendo o ex-deputado e seis colegas de partido, também tomou o mesmo rumo, em abril de 2018, nas mãos do ministro Edson Fachin.

Ao menos no caso de Sessim e seus colegas, as palavras dos delatores foram jogadas ao vento. Na teoria, o que falaram deveria ter sido embasado com provas para a concretização de seus benefícios. Parece ter funcionado em alguns casos. Mas em outros, não.

Paulo Roberto Costa ficou cinco meses na cadeia e o restante da pena, já cumprida, em casa. Youssef está atualmente, segundo noticiado pela coluna de Lauro Jardim no Globo, retomando a carreira de venda e compra de dólares. No mercado formal de câmbio.

Cassinos para salvar o Rio

Ainda é difícil saber quais as principais pautas que o chefe Witzel encarregará Sessim de tocar em Brasília. O governador disse, por exemplo, em entrevista no início do mês passado, que quer legalizar o funcionamento de cassinos para melhorar a arrecadação no estado:

“Nós estamos empenhados em aprovar agora a legislação que permite a instalação de cassinos no estado do Rio de Janeiro. Não é possível que, só em Las Vegas, pessoas gastem fortunas.” 

Desde seus primeiros anos de parlamento, Sessim – relembrando, primo de Aniz Abraão David – demonstrou apoio incondicional ao jogo de azar no país. Em 1986, por exemplo, na Comissão de Esporte e Turismo, deu parecer favorável a um projeto de lei, depois arquivado, que queria legalizar o jogo do bicho e anistiar todos os contraventores.

Mas, no ano passado, durante discussões para um projeto que poderia abrir caminho para a abertura de cassinos em resorts, Sessim disse que o assunto deveria ser discutido com mais calma, numa Comissão Especial de Jogos e Entretenimento Digital. Ele reforçou, porém, claro, ser “amplamente favorável à legalização do jogo”.

Resta saber agora então se, para a roleta começar a girar, valerá a pressa do ex-juiz ou a calma do primo do bicheiro.


*Foto em destaque: Simão Sessim em audiência pública, na Comissão de Viação e Transportes da Câmara, em junho de 2018. Crédito: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

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