Maracanã: ex-assessor de deputado pastor é peça-chave em futuro do estádio

O futuro do maior palco do futebol brasileiro passa pelas mãos de um advogado ligado a um ex-deputado federal, que teve a defesa da “cura gay” como uma das principais bandeiras de seu mandato. Cassio Rodrigues Barreiros saiu, na virada do ano, direto do gabinete do pastor Ezequiel Teixeira (Podemos), da Igreja Projeto Vida Nova, para os quadros do governo de Wilson Witzel. Agora, é ele a peça-chave nos próximos passos que envolvem o Maracanã.

Barreiros comanda desde junho a Comissão Consultiva do Maracanã, colegiado composto por nove membros do governo, que havia sido criado em março para planejar o modelo de gestão do estádio. Com a presidência, o advogado terá agora papel decisivo na preparação de uma nova licitação. Concorrência esta que não sairá antes do ano que vem. Atualmente, a administração está a cargo de Flamengo e Fluminense.

Na última quarta (25), o governo lançou um edital para a elaboração de estudos técnicos para uma nova licitação, que dá plenos poderes à Comissão Consultiva. O colegiado poderá aceitar uma proposta parcialmente ou até rejeitar todas, se nada se enquadrar no que achar adequado. Também estipulará o preço que acha justo para o trabalho, até um limite de R$ 2,560 milhões. O pagamento terá que ser feito por quem ganhar a futura licitação.

Doações para campanha de pastor

Cassio Barreiros acompanha Ezequiel Teixeira desde sua primeira eleição para deputado federal, em 2014, quando o pastor obteve a cadeira de parlamentar, com 35.701 votos pelo Solidariedade. Naquela ocasião, o advogado fez duas doações em espécie para a campanha, num total de R$ 11 mil.

Entre dezembro de 2015 e fevereiro de 2016, Barreiros esteve nomeado como subsecretário Executivo de Direitos Humanos quando quem comandava a pasta no governo de Luiz Fernando Pezão era o pastor Ezequiel Teixeira. Em três meses no cargo, o fundador da Igreja Projeto Vida Nova esvaziou o programa Rio Sem Homofobia e fechou quatro centros de assistência à população LGBTQI+.

Nas eleições do ano passado, o advogado doou R$ 7,1 mil para a campanha de Ezequiel Teixeira. Fora o próprio pastor, que doou para si mesmo R$ 146 mil, Barreiros foi a pessoa física que mais colaborou com recursos para a candidatura. Com 23.646 votos, porém, o deputado federal não conseguiu a reeleição pelo Podemos.

Ezequiel Teixeira (centro) e Cassio Barreiros (à esquerda) em reunião na Câmara dos Deputados em 2017 / Divulgação / Câmara dos Deputados

Apoio a Witzel na campanha

Durante a campanha de Witzel ao governo estadual, Ezequiel Teixeira esteve em algumas agendas. O próprio ex-juiz federal compartilhou em sua página no Twitter, em 25 de outubro do ano passado, um vídeo em que o amigo pastor declara seu apoio dizendo que o “dr. Wilson está alinhado com os princípios e valores bíblicos”:

Ezequiel Teixeira é casado com a pastora Márcia Teixeira, que já foi vereadora na Câmara Municipal do Rio. Em 2016, com 7.303 votos, ela não conseguiu se reeleger.

Em 2014, o pastor foi acusado pelo Ministério Público Eleitoral de propaganda irregular na campanha para deputado federal por divulgação da candidatura dentro de um templo da Igreja Assembleia de Deus da Família, em Duque de Caxias.

O Tribunal Regional Eleitoral, porém, rejeitou a denúncia do MP alegando falta de provas. O pastor da Assembleia de Deus da Família citado no processo, Ednaldo Valdemar da Silva, foi defendido à época pelo advogado Cassio Barreiros.

Licitação demora a andar

Em véspera de ano eleitoral, o Maracanã é um importante ativo político para o governador Wilson Witzel. Desde abril, o estádio é administrado por Flamengo e Fluminense, após o estado ter rompido, de forma unilateral, o contrato com o consórcio gerido pela Odebrecht.

Os seis meses de prazo de gestão dos clubes se esgotam em pouco mais de duas semanas. No entanto, não haverá uma licitação definitiva de imediato. O estado fará uma nova concessão temporária de mais seis meses. Uma seleção será feita, mas o mais provável é que nada mude em relação ao quadro atual.

Em vez de ter aproveitado o período inicial da concessão provisória para já aprontar a licitação, o estado optou por só lançar agora o edital para a elaboração dos estudos técnicos. É esta seleção que terá Cassio Barreiros como o presidente da comissão.

Contrato com FGV é ignorado

Pelos prazos estipulados no edital, é praticamente certo que os estudos não sejam finalizados antes de meados de janeiro de 2020.

Curiosamente, o governo desprezou um contrato anterior, assinado entre o governo de Luiz Fernando Pezão e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) exatamente para embasar um modelo de licitação do estádio. O valor previsto era de R$ 2,5 milhões, mas como a concorrência não foi realizada a FGV não recebeu qualquer valor.

“O estudo realizado pela FGV não contempla hoje o interesse do estado”, informou a assessoria de imprensa da Secretaria de Esporte, acrescentando que a fundação poderá participar da atual seleção se quiser.

*Foto em destaque: Estádio do Maracanã, administrado atualmente por Flamengo e Fluminense / Tânia Rego / Agência Brasil

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